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Enfim, chegou a apetecida sexta-feira. Aquela em que se pode rever os amigos, badalar, beber, rir dos fatos da semana, entre outras formas de diversão. Pois bem, por mais atraente que seja, hoje optei por não ter uma dessa. Na realidade, o soberano em questão não fui eu, de fato, mas sim minha inconveniente gripe, que, neste único caso, foi de uma conveniência tremenda.

Há semanas que vão se somando em nossas cabeças e torna-se necessário um dia de descanso mental. Um dia para externar as ânsias passadas, que insistem em se acumular e deixar-nos nessa situação horrenda de autopendência. Um dia para resolver o mal-resolvido, seja este por culpa do tempo, por culpa do medo, por culpa exclusivamente nossa.

É a partir deste dia que sua vida começa a se mover; o estado estacionário é, feliz e finalmente, abolido. É como se uma engrenagem que você não sabia da existência fosse recolocada em seu sistema vital. Não vou dizer que isso solucionará seus anseios. Longe disso. Todavia, algo extremamente valioso baterá à sua porta: percepção.

Você começa a perceber o motivo do atraso. Ao mesmo tempo, percebe o que o move para frente. Começa a criar coragem para eliminar todos esses mecanismos de frenagem cujo apego é imensurável e reiniciar-se como indivíduo. Percebe que essa onda de futilidade, a qual você tanto criticava, gerava marolinhas perto de ti. Pequenas, como o próprio nome diz, mas poderosas a longo prazo.

É então que seu tempo, antes escasso, torna-se pleno. É então que o relevante recebe sua devida relevância. Os seus desejos e planos, anteriormente tão irrealizáveis, agora possuem um palco para atuarem. E o fator determinante é você. O rompante é fundamental, mas, a partir dele, é sua força que conta. Afinal, a marolinha continua. E é tão sutíl quanto bruta.

Se esta é só mais uma das inúteis epifanias que tive, não sei dizer. Mas posso falar que, neste momento, há uma determinação nunca antes presenciada em meu corpo. À esta, dou o nome de amor próprio.

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(Matthias Heiderich)

(Matthias Heiderich)

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Locomotive

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John Bovington (Imogen Cunningham)

John Bovington (Imogen Cunningham)

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Lily Brik (Aleksandr Rodchenko)

Lily Brik (Aleksandr Rodchenko)

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“Tenho que escolher o que detesto — ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a acção, que a minha sensibilidade repugna; ou a acção, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.

Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei-de, em certa ocasião, ou sonhar, ou agir, misturo uma coisa com outra.”

— Bernardo Soares (Livro do Desassossego)

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And the world spins madly on.

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Continuidade dos Parques

Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos.

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Dinâmica

O que me move adiante?

O êxtase do fresco, do novo, do encantador.

Um elemento capaz de remover-me da inércia mental.

Algo que abra a janela e deixe o sol raiar.

Qualquer potencializador criativo.

Arte!

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